Estaleiros de Vila do Conde
 
 

 

 

Panorâmica geral dos antigos estaleiros de Vila do Conde


(... continuação)

Governava Portugal a dinastia dos intrusos consentidos - os Filipes de Espanha - é aceite que Vila do Conde terá homiziado o pretendente ao trono D. António, Prior do Crato, talvez em Vairão no convento do beneditino. O certo é que o general espanhol D. Sancho D'Ávila teve aqui muita tropa instalada, o que deu motivo a reclamações constantes dos moradores à Câmara e esta, por sua vez e movida pela força dos habitantes, ao rei. Nesta altura a Câmara, diziamos expõe ao rei, certamente acicatada pelos mestres da ribeira das naus " Dizem os juizes e vereadores e procuradores da vila de Vila do Conde que eles suplicantes se queixaram a sua magestade dos juizes e vereadores da Vila de Barcelos, que estando eles em posse de ir cortar madeira e árvores para embarcações que na dita vila se constumam fazer, assim para o serviço de V.M. como para o seu comércio, no termo da dita vila de Barcelos, eles ditos vereadores da dita vila de Barcelos lhes impedem de que não vão comprar a dita madeira, nem a levem para a dita vila sem licença da Câmara o que fazendo-se e procurando-se sempre licença da Câmara fica em muita opressão dos compradores e querendo-se V.M. informar, veio a informação acostada do procurador da comarca do Porto... Pedem a V.M. lhes mande passar previsão para serem citados os juizes e vereadores da vila de Barcelos para diante do procurador da cidade da comarca do Porto, ou diante do juiz ou corregedor do cível da casa do Porto... "

O rei decidiu dar seguimento a queixa e informa o senado da Câmara por carta de 5 de Abril de 1593: " D. Filipe... faço saber que havendo respeito ao que na petição atrás escrita dizem os oficiais da Câmara de Vila do Conde, hei por bem e me apraz de lhes dar licença para que possam citar e demandar, perante juiz competente, aos oficiais da vila de Barcelos, pelo caso conteúdo da dita petição, se lhes parecer que nisso tem justiça... ". Não há mais noticia sobre o caso, mas tudo leva a querer que houve ajuste de na posição dos homens de Barcelos, dado que se continuou a cortar madeira em Barcelos. De outra madeira era impossível, na época, a construção naval sobreviver , pois Vila do Conde não tinha termo, apenas possuindo dois pequenos lugares de Touguinha, e, estes, não eram, de forma alguma, capazes de abastecer os estaleiros.


 

 

 

Um aspecto dos antigos Estaleiros Samuel & Filhos, Lda.

Em finais do século XVI a decadência dos estaleiros era notória, como se pode apreciar por uma resposta que a Câmara deu o rei, dizendo que não podia fornecer mais homens de mar, do que doze, visto que a vila estava muito desbaratada de navegação e os mareantes irem viver para Lisboa. Naturalmente que assim se escusava de mais gravosos encargos, mas a resposta não é, de todo, enganadora. Começava por esta altura, talvez a primeira grande crise cíclica dos nossos estaleiros que se viria a repetir no correr dos tempos, chegando aos dias de hoje por motivos que são de todos conhecidos e que têm a ver com a política gorvernamental para o sector e que tem o seu Zénite nos abates das embarcações sem substituição respectiva.

Em 1857 estavam em construção nos estaleiros de Vila do Conde, de acordo com a nota da Alfândega, 17 embarcações, divididas por Barcas, Brigues, Pataches (a maior quantidade), Palhabotes, Escunas e Hiates, cujo termo médio de operários afectos a cada construção regulava de 15 a 20 entre oficiais, mancebos e aprendizes, como então eram designados. O salário auferido pelos oficiais, era de verão de 300 reis e de inverno de 240 reis. Em nota suplementar o delegado da Alfândega informava: " O Estaleiro desta vila é um dos importantes e procurados para construções, em consequência de maior facilidade e mais barateza da condução das madeiras para as ditas construções. ". Informava ainda que a madeira utilizada era o pinho manso e bravo e o carvalho.

Dando um salto de quase cento e quarenta anos, chegamos aos nossos dias. A crise instalada é de certo modo preocupante a mantém os mestres construtores navais, actualmente representando três estaleiros: Samuel & Filhos, Lda. , Postiga & Feiteira estes em Vila do Conde e Sicnave, em Azurara, em estado de alerta e alguma angústica. Para breve estará a total mudança dos estaleiros milenários para a margem sul do Ave, mais concretamente para a freguesia de Azurara, outrora próspero centro de manrinharia que veio a perder, cedendo quase todoa a primazia a Vila do Conde, à excepção da construção naval que sempre manteve. O último "bota-fora ou bota-abaixo", como também se diz , pelo antigo sistema de carreira de escorrega, teve lugar no último dia 30 de Abril.


 

 

 

Um aspecto dos novos estaleiros

Estivemos presentes e no final ouvimos as declarações de mestre António do Carmo (Samuel) sobre a mudança radical para a outra margem. Ficamos tristes, como ele que não disfarça a comoção, ele um homem de coragem, habituado às adversidades, tarimbado na lida com homens fortes, e que lhe  foi impossível conter a dor de ver  partir da nossa milenária Ribeira das Naus toda a arte que nos levou a todos os cantos do Mundo. Os nossos mestres ensinaram em todo o lado, até na longínqua Índia, onde Inácio Gomes, um vilacondense do século XVIII, foi mestre da Ribeira das Naus de Goa, este um exemplo entre outros.

É o preço do progresso, ou o preço da economia? que nos vai fazer perder uma das nossas glórias mundiais. O que dói ao amigo António do Carmo (Samuel), ao seu irmão Francisco, aos filhos e sobrinhos, aos seus trabalhadores, desde o Albino Rocha ao mais incipente aprendiz; ao José Maria Praga Postiga e ao Feiteira, aos seus operários e ao conhecido Zé da Lapa, não é tão só o agravamento das taxas que vão ter de suportar, como se vivessem em maré de vacas gordas, mas, mais que tudo isso, é o deixarem de ver a sua Ribeira, que até já teve o Pelourinho da vila, deixar de fervilhar no dia a dia, de deixarem de se ouvir as vozes de comando no bota-fora: " Olha essas bimbarras dos barineis, atenção aos maçariqueiros " e por fim , quando o barco desliza carreira abaixo o enternecedor "Deus te guie".

 

O último Bota-Abaixo pelo sistema de escorrega nos estaleiros de Samuel & Filhos, Lda.    

Estaleiros de Vila do Conde, estaleiros de milhares de infâncias, Adeus até ao outro lado... Adeus "Bartelomeu Dias", adeus "Boa Esperança".

O texto dos Estaleiros de Vila do Conde é de Monteiro dos Santos , in "Páginas Verdes - Vila do Conde" de Maio/94
As fotos dos Estaleiros de Vila do Conde estão publicadas, in "Páginas Verdes - Vila do Conde" de Maio/94