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Carta aberta do Rancho da Praça
ao S. João
Meu S. João Baptista: em teu louvor, a Praça
Ergue mais uma vez no dia que hoje passa
Um hossana de amor,
Para te vir saudar a Ti, que sem fadigas,
Recebes lá no Céu preces das raparigas,
Sempre de bom humor ...
E se não fosse a Praça, Tu com certeza este ano,
Sofrias cá na Vila, um grande desengano ...
O Monte adoeceu! Esteve a morrer, coitado!
Foram os três doutor´s, dar-lhe óleo canforado,
Sinapismos, ventosas, balões d´oxigénio,
Para ele poder vir de novo ao proscénio
Fingir que recupera a mocidade,
Que tu, meu S. João, sabes não ser verdade! ...
Porque, diga-se tudo. O Monte já foi Monte! ...
Agora é o que se vê ... Embora ele reponte,
Não tem vida, nem alma. É um espectro cansado
Que vive a remoer lembranças do Passado! ...
Quase que se não mexe e até pôs a prémio
O favor de lá ir picá-lo no trigémio,
Para ver se ele espirra e pode no teu dia,
Fingir novo vigor, criar nova energia! ...
No domingo, surgiu-lhe um ataque impresvisto! ...
Foi lá o Barateiro, e o padre do Registo,
O Dr. Canavarro e um tanto rabujento,
O Dr. Pereira Júnior, fazer-lhe o testamento ...
Era tanto o rumor, tão grande o alarido
Que se ouviu cá na Praça o pranto comovido!
E um repórter X, creio que o Tadeu,
Disse para o «Comércio»: O Monte faleceu! ...
Nisto surge um doutor elembra com prosápia
Que era bom ensaiar a asueroterápia! ...
E quase por milagre o Monte arrebitou! ...
Aturem-no agora! Mal o nariz queimou
Num grande repelão levanta-se da cama
E ainda a vacilar, com cólera exclama:
- Para trás vilagem! Abastardada gente!
Quem disse alguma vez que o Monte está doente?
Trazei-me o capacete, a lança e o arnez
Onde estão os da Praça? Esmago-os duma vez!
Trazei os meus canhões! Quero-lhe dar batalha,
E arrasar a Praça a golpes de metralha! ...
Foguetes d´assobio e granadas de mão
Cantigas com mostarda, um pouco de calão,
Bombas de dinamite, tiro e arruaça,
Eu tudo empregarei para vencer a Praça!
E exausto no fim da trágica tirada
Tão alquebrado fica,
Que com fragor e a face afogueada
Cai nos braços do Bica!
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Ora Tu, S. João, que és Santo de crédito
Diz-me lá se é possível, levar o Monte a sério! ...
Depois deste relato,
Parece que seria um pouco caricato
Que Tu, meu S. João,
Não nos desses razão!
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E o S. João da Matriz, erguendo-se com graça
Disse a quem quis ouvir: Eu sempre fui da Praça!
CUNHA ARAÚJO