Carta do Rancho da Praça a S. Pedro

 

 

 

Senhor S. Pedro: É com pesar e espanto

Que lemos a bocado um panfleto,

Atribuído a voz, que foste sempre um Santo,

Ponderado e discreto!...

Se também lá no céu houvesse ditadura

Pensamos, com razão,

Que nunca passaria ao visto da Censura,

A «Carta de S. Pedro, escrita a S. João»!...

Compreendemos bem, que a gente indo p`rá velho

Rabuje o seu bocado e fique impertinente...

Mas franquezinha franca, aqui à vossa orelha;

Aquilo, para Santo, é um pouco incoerente!...

Na crítica aos da Praça e até à sua entrada,

Lê-se nas entrelinhas,

Que vós já receais um pouco a madrugada,

E costumais recolher à hora das galinhas.

Do relato infeliz, a Praça não se escama...

Mas não é verdadeiro.

Só se há lá no céu um diário da... trama,

Capaz de dar ouvidos a qualquer telegrama

Mandado pelo Tino ou pelo Barateiro!...

Faltou-vos só dizer, que os do Monte, aflitos,

Foram-se implorar à «A arte de... Felgueiras»,

Uns monos de papel, uns bichos esquisitos,

Que passaram na Vila a iluminar... manguitos,

Por entre o alarido e o gáudio das soupeiras!...

Aquilo sim!... Que estranho sortilégio!

Só pela graça imensa,

Mer`cia ser cantado por um vate Régio

E ser publicado na «Presença»!

Descreve-se na Praça uma coreografia

Difícil de ensaiar.

E o Monte apesar de três ensaios ao dia,

Com o Raúl, um tal Ameixa & Companhia,

Deu raia de pasmar!...

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Numa só coisa o Monte se excedeu!...

Chorando sempre a bolsa de plebeu

Ou de frade capucho,

Arranjou tanto estro e tantas poesias

Que vomitou cá p`rá fora em menos de três dias,

Quatro «edições» de luxo!...

Foram versos demais. A alguma gente ignara

Para armar conflito,

Disse que a rima era armada à vara!

Mas eu, não acredito!

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O que dispertou mais zanga e mais pirraça

Ao Monte do Mosteiro,

Foi a tal nau, ou chalupa, ou barcaça,

Que apresentou a Praça.

Para nela bailar o seu Rancho altaneiro!...

Ora vós que foste humilde pescador

No mar, desde criança,

Não podereis, decerto, com tanto desamor,

Dizer mal da lembrança...

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Pó isso tudo leva a gente a acreditar

Que a Vossa carta, editada pelo Monte,

Foi um abuso e um embuste a castigar

Que merece de Vós uma pena exemplar

Que a Praça desafronte!...

 

P.S.

 

S. Pedro demonstrando sua mágoa

Telefonou à Praça:

- Enviei uma tremenda carga d`água,

Que decerto, não passa!...

Se o Monte se inundar e enguer as mãos aos Céus,

Recolhei-o a bordo da barcaça,

Pelo amor de Deus!....................................................

................................E nisto, catrapuz!!!

O S. Pedro zangado, escorrilhando a testa,

Disse ao Pacheco: Corta-me essa luz,

Que já não quero festa!...

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E foi o que arranjou o Monte trapalhão,

Com a carta de S. Pedro escrita a S. João!

 

                                                           CUNHA ARAÚJO