Monte iludido

Quis triunfar , pobre Monte …

Que nem triunfo rimou!

Não te faças tanto ancho

Sempre a modéstia agradou!

Não veio o Rancho na cheia:

Chamou-o o Rio Ave

Que ao vê-lo de tão contente

Cantou ele conjuntamente:

        

            Alma da Praça

            Alma da Raça

            E de Beleza!

            És no ardor

            Do teu amor

Bem portuguesa!...

 

Veio a Tuna do Convento

Para o Monte ir mais p´ra cima

Mas, meu Deus, que louco intento

Foi um desastre sem rima!

O Monte fica no alto

(Que em baixo não pode ´star)

Mas a tanto quis subir

Que acabou por se abaixar

E até mesmo por pedir:

 

            Ó Praça por compaixão,

            Não torno a teimar

            Perdoa-me a ilusão

            E ensina-me a cantar

            Ao S. João!

 

Veio de lá do Convento

O harmónio que inda existe

Mas que destino agoirento

E que figura tão triste!

Pobre sorte S. João!...

Quase ninguém já se ouvia:

E o Rancho que tem peito

Gemendo na agonia

Cantava deste jeito:

 

            Ó Monte ´stá calado

            Que ao Santo até faz raiva:

            É tudo desolado,

            Manda calar o Saraiva

            Descoroçoado!...

 

Veio em peso o Direito

Com famosa habilidade

P´ra garantir-lhe o pleito,

Mas só ficou a vontade!...

O pobre Rancho do Monte

´stava nulo e sem razão:

E os Doutores retirando

Com os Códigos na mão

Assim diziam choravam:

 

            Ó Monte, tens tal jeito

            Escusas de negar

            Que tudo o que tens feito,

            É feito a copiar

            P´ra não cansar o peito!

 

                                                CUNHA ARAÚJO