Proclamação...

(à Praça heróica e invencível)

 

 

 

Gente da Praça: Alerta! O Monte alucinado

Tenta mais uma vez, como vilão ruim,

Arrancar-vos da mão, esse troféu sagrado,

Que tremula na Praça, há séculos sem fim!...

 

Como tribo feroz, em rouca imprecação

Saem do Monte em fila,

E juram ao seu Deus, irrisória ilusão,

Levarem de vencida a nobre tradição,

Que sempre palpitou no coração da Vila.

Deixai-os pois descer. Em atitude calma,

Olhai-os frente a frente,

E depois lhe direis que a vitória e a palma

Pertence a quem cantar com mais brilho e mais alma,

E não a quem pragueja, em iras de demente!

Juntai-vos, sem temer a vaia e a arruaça!

Deixai que venha o Monte e toda a sua prole,

E vereis recuá-lo ante o valor da Praça,

Como a sombra recua, ao despontar do Sol!

Não vos deixeis levar por comiserações...

O Monte é uma serpente,

Capaz de vos morder os próprios corações!...

Nunca mais vos fieis nessas lamentações

Do Monte pobrezinho e maila sua gente!

O Monte é bicho mau. E de noite, devassa

Com seus olhos de fera,

O mínimo rumor, o vulto de quem passa,

Pois pretende fazer, sobre o Rancho da Praça,

O salto da pantera!...

Acabemos de vez com o monstro da lenda!...

Já vai sendo demais...

E na luta feroz é justo que se entenda,

«Não há pais pelos filhos, nem filhos pelos pais»!

Chamai-os a terreiro em campo raso e aberto

Assim, de cara a cara...

O local da batalha é lindo e fica perto,

É o alto d`Azurara!

Ali, Rancho da Praça, impando galhardia,

Em multidão, em massa,

Porás ponto final naquela aleivosia

Do Monte que se diz, por suprema ironia,

O vencedor da Praça!

Tua gente será a heróica legião

Evocando o orago,

E póla tua grey e pelo S. João,

Tu dirás como outrora o famoso Catão:

- Arraze-se Cartago!...

- Sim! Arrasai o Monte onde a cobiça medra,

A tiro de granada,

Não lhe deixeis ficar, nem pedra sobre pedra,

Pela encosta escalvada!...

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Às nove horas da noite estoira um foguetão!

E as mães que o som terribil escuitarem

Em coro cantarão,

Para os filhos também todos cantarem:

Vitória!... Vitória!...

E a Praça há-de vencer e cobrir-se de glória,

Vendo o Monte a seus pés a implorar perdão!...

 

EM TEMPO

 

A quem ficar em casa ou apareça tarde

Com medo da fumaça,

Em processo sumário e feito sem alarde

O povo tem direito a chamar-lhe covarde!...

E risca-lo da Praça!...

 

            Vila do Conde, Quartel General do Rancho

 da Praça, em 13 debJulho de MCMXXX.

 

                                                       CUNHA ARAÚJO