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Quadras e Poesias do Cancioneiro do Rancho da Praça
A poesia e os versos que ao longo dos 100 anos de existência do Rancho da Praça, rapazes e raparigas foram cantando, teria sido sempre inspirada, espontânea, «popular»?. É uma pergunta que se faz, mas para que não queremos encontrar uma resposta definitiva, ou sequer para valer provisoriamente. Dá-nos a ideia que esta é uma pergunta para várias respostas. E voltamos ao princípio: Teria sido sempre em linguagem «poética» que os autores das letras das antigas vazaram a sua inspiração, o seu esforço e imaginação?De uma amostragem do Cancioneiro do Rancho da Praça, retiramos:
1 - Poesia ao gosto popular.
2 - Poesia de circunstância local.
3 - Poesia jocosa e satírica.
São três grupos principais onde nos 2º e 3º grupos há sempre elementos do 1º grupo. Onde no 2º grupo aparecem estruturalmente elementos do 3º e se mostra nítido o elemento 2º grupo no 3º. Vemos, por conseguinte, que há uma interpenetração de valores que bafeja todos os modelos ainda que os autores de letras de tantas canções diferentes nada tenham que pagar de direitos a nenhum outro.
Tentemos outra pergunta ( esta, resultante da amostra 1º):- Poesia ao gosto popular ... então não deverá dizer-se «Poesia Popular»?. É verdade que tudo o que seja criação do Povo e nele mergulhe suas raízes é popular mas ... Como sabemos, o Cancioneiro do Rancho da Praça é produto principal de alguns grandes nomes de poetas populares de Vila do Conde ( não deve ler-se poetas do povo mas sim como escrevi: poetas populares ): Duarte Silva, Cunha Araújo e mais modernamente Lopes Ferreira, Jacinto Firmino, etc.
A amostra 2, a que passamos agora para não repetir-mos esquemas, e porque (não sei porquê) nada sou capaz de dizer sobre Cunha Araújo: intimida-me aquela figura aristocratíssima fumando egipcíacos longuissímos loiros cigarros adoríficos..., a amostra 2º, dizia, não mostra quase mais do que é: ilustração a que o poeta recorre na circunstância de dar resposta, ou provocar, por sainete, o vivo choque das personalidades, dos acontecimentos e da dialéctica do real local, sobretudo quando esse real se chamava Rancho do Monte ou mostrava a forma de individualidades a ele mais ligadas. Daí, também, bebia a poesia a emulação de que ela própria beneficiava em termos de qualidade mas, sobretudo, de quantidade. No que respeita à poesia jocosa e satírica a amostragem é também suficiente porque é uma constante como «conteúdo» da poesia de circunstância local: porém notar-se-á a partir dos anos 50 um decréscimo do entusiasmo por esta forma de intervenção. Parece que, com o desaparecimento de Cunha Araújo deixa de haver quem, na Praça, seja tão capaz da piada mordente e certeira, medida e rimada. Eis uma constante que foi sendo perdida mas tudo aponta para que esta tradição possa ser recuperada porque o «real quotidiano» vilacondese nunca terá sido tão rico como hoje o é para que nele se retempere o rio de vozes que o Rancho da Praça anda há 80 anos a cantar...José Maria da Silva Couto