Faz parte das tradições vilacondenses que na noite de 29 de Junho, dia de São Pedro, os
ranchos de rendilheiras de Vila do Conde, a Praça e o Monte, juntamente com os seus milhares
de simpatizantes organizem a sua "ida à praia", aproveitando a oportunidade para cada um
fazer as críticas mais ou menos mordazes ao outro mas, sempre dentro do admissível e do
razoável. Pelo menos, este é o sentido que norteia e sempre foi apanágio da Gente da
Praça. Este sentimento é bem acolhido pelas pessoas, mesmo pelas pessoas de bem
simpatizantes do Rancho do Monte, que aproveitam para se rir e divertir.
Lamentavelmente, este não é o sentir dos "senhores do monte". São vários os maus exemplos
por eles protagonizados ao longo dos anos. Lembramo-nos entre outros, de um particularmente
grave em que há anos atrás fizeram explodir um carro com fogo de artifício no meio da
multidão no Largo dos Artistas. As pessoas fugiram em pânico com os foguetes a rebentar
atrás de si e por sorte, muita sorte, além de muitas pessoas terem sido pisadas, apenas
uma senhora idosa partiu um braço por ter caído.
Vem isto a propósito das lamentáveis cenas que este ano se passaram. Como tivemos oportunidade
de dizer, pelo São João o Rancho da Praça apresentou uma magnífica réplica do Pelourinho.
Aliás, na nossa Colectividade temos a constante preocupação de mostrar e divulgar os
encantos da nossa terra. Neste caso particular dos monumentos, é também uma maneira de
mostrar às pessoas que na nossa terra existem coisas belas que importa preservar.
Inexplicavelmente, numa atitude grosseira, irresponsável, prepotente, reprovável e altamente
inqualificável, os dirigentes do Rancho do Monte assistiram e aplaudiram impávidos e serenos
o triste espectáculo de "teatro" provocatório de um energúmeno no Largos dos Artistas a
partir uma fraquíssima imitação de um pelourinho? e a atirar os pedaços não só de esferovite
mas também de platex para cima da multidão.
A intenção foi apenas uma - provocar e acicatar os ânimos das milhares de pessoas ali presentes
que apenas estavam ali para se divertir. Não fora a pronta intervenção de alguns directores
do Rancho da Praça e de outras pessoas sensatas afectas aos dois ranchos e, em vez de
pequenas escaramuças e muitos nervos, poder-se-ia ter assistido a uma verdadeira batalha
campal que hoje todos poderiam lamentar e que, do conhecimento da comunicação social,
envergonharia Vila do Conde e os vilacondenses, a Comissão de Festas que se preocupou
para que tudo corresse bem e, os governantes políticos da nossa terra.
Atitudes destas não se identificam com a rivalidade existente entre os dois Ranchos. A isto
chama-se prepotência, falta de respeito e estupidez, onde impera a lei do "quero, posso e
mando" como se não existisse mais ninguém acima deles. A rivalidade que entendemos não é
essa. É a de cada um procurar fazer melhor que o outro para dignificar as Festas, atrair
a Vila do Conde cada vez mais pessoas, respeitar e transmitir aos vindouros as tradições
vilacondenses e fazer com que os vilacondenses se identifiquem e participem cada vez
mais nas suas Associações.
Esperamos, para bem da paz social vilacondense que a culpa não morra solteira e que os
culpados e responsáveis sejam chamados à razão. Nesse sentido, o Rancho da Praça escreveu
à Comissão de Festas de São João e ao Presidente da Câmara Municipal de Vila do Conde e
aguarda o seu desfecho. Se nada for feito entretanto para que se crie ordem e respeito,
no próximo ano poderemos não ter meios para conter a multidão à sua passagem no Largo
dos Artistas.
Relativamente à participação do Rancho da Praça, dado que nesse dia choveu muito até quase
ao fim da tarde, não sabendo se as condições climatéricas se iam manter ou não, decidiu a
Direcção que, contrariamente ao habitual, nessa noite os ranchos não dançariam na Praça
de São João.
O carro das críticas apresentado versou sobre a ida, que não veio a acontecer, do Rancho do
Monte ao Canadá, invocando para o seu fracasso a desculpa da pneumonia atípica, apesar de
os organizadores naquele país terem publicado nos jornais vilacondenses que lá no Canadá
não havia problema algum e as pessoas andavam livremente. Aliás, temos o exemplo de
milhares de açoreanos que daquele país regressaram à sua terra natal para as Festas do
Santo Cristo dos Milagres e nenhum deles veio afectado.
Constava esse carro de um avião que nunca chegou a descolar com as respectivas cabras lá
dentro e duas quadras perfeitamente elucidativas:
Com a encenação nos jornais
Ficamos com o palpite.
Será que do Canadá
Terá vindo algum convite?
Mas apesar dos apelos
Vindos da banda de lá,
As cabras cheias de medo
Não foram ao Canadá.
Para o ano há mais. Viva a Praça.