Estaleiros de Vila do Conde
 
 

 

 

 

Lugre "Andorinha" de 1919


A antiguidade dos estaleiros de construção naval em madeira da nossa terra, é difícil de situar no tempo. No primeiro documento conhecido onde Vila do Conde é citada, e que é uma carta da venda da parte que nesta vila lhe tocava, que faz Flamula, filha de Paio e Ibéria, ao abade Gonta do cenóbio de Guimarães, datada de 26 de Março de 953, lê-se: " com suas salinas e pesqueiras... ". Para andar à pesca e para atravessar o rio era necessário haver barcos e havendo barcos era preciso que os construíssem e reparassem. Atendendo a esta lógica simples, mas de todo verdadeira, pode consluir-se que a construção naval tem, pelo menos, a mesma idade do burgo, ainda que de uma forma rudimentar e de uma actividade necessáriamente diminuta.

Na igreja românica da freguesia de S. Cristóvão de Rio Mau já conhecida em 1103, existe a mais antiga representação iconográfica, conhecida em Portugal, de um barco, o que nos pode levar à conclusão anterior. Mais concretamente os documentos começam a surgir no reinado de D. Sancho II, como nos diz Fr. António Brandão na Crónica deste rei, referindo que D. João Pires, dos da Maia, filho de Pero Pais, o alferes, homem  da primeira nobreza do reino, quis quebrar um grande penhasco que estava na foz do rio Ave e que impedia, grandemente, a normal entrada das embarcações que demandavam este porto. Conseguiu, em parte, o intento, como diz o citado autor que adianta que se podia ver, com a maré vasa, ainda uns vestígios daquela massa basáltica. Se este penedo tanto incomodava o fidalgo, era, comcerteza, porque ele teria interesses comerciais marítimos em Vila do Conde. Esta passagem é bem significativa do movimento que o porto do Ave tinha já no princípio do séc. XIII.


 

 

 

Estaleiro de Azurara, visto de Vila do Conde


Um pouco mais tarde, pelas Inquirições de D. Afonso III, em 1258, ficamos a saber que a nossa terra armava para cima de 60 pinácias, número bastante considerável para a época. Outro tipo de embarcações demandavam o Ave, pois que nas citadas Inquirições é referido o facto de Azurara e Pindelo terem comércio do alto. Era já grande, por esta altura, o movimento dos estaleiros como se pode entender, o que viria a influir no crecimento da vila. As indústrias ligadas ao movimento marítimo tinham que existir e sabemos que sim por uma carta régia de D. Fernando, datada de 25 de Janeiro de 1377, onde se pode ler: " D. Fernando, pela graça de Deus rei de Portugal e do Algarve ... sabede que nós foi dito que em Vila do Conde e nos outros lugares dessa comarca (referia-se à comarca do Porto) onde se fazem panos de treu ... ".

A laboriosa indústria dos panos de treu, coabitando com a do cordoame, viria a alcançar tal fama que o vice-rei da Índia - Afonso de Albuquerque em carta dirigida ao rei, pedindo panos destes pedia os de Vila do Conde. Na toponímia da cidade não resta memória de local onde se fabricassem, mas não será grave crime pensar que seria no chão dos Cordoeiros, mais tarde conhecido por Cordoaria e que se situa no preciso local onde começa a Av. Dr. António José Sousa Pereira. Este topónimo vingou durante séculos, ainda não há muitos anos que os mais idosos ao referirem o local utilizavam o nome de "Viela da Cordoaria" indistintamente com o de "Viela do Ribeiro", este último nome derivou do facto de pelos anos 30 no século, a Câmara Municipal, a pedido dos moradores ter canalizado para aquele local a água de uma mina que se situava em Alto da Pêga, penso que no campo chamado de "Campões".


 

 

 

Aspecto do antigo estaleiro Postiga & Feiteira


Vimos como os nossos estaleiros foram crescendo nos primeiros duzentos da nacionalidade. Viriam a atingir grande prosperidade com as conquistas no norte de África. É mesmo sabido que muitas embarcações que partiram à conquista de Ceuta foram construidas em Vila do Conde e que daqui partiram, também, a levar o pão que era preciso naquela zona de África. O comércio com o norte da Europa, donde provavelmente foram trazidas as rendas de bilros que hoje tanto nos celebrizam, ocupava grande número de embarcações e mareantes. A fama dos nossos carpinteiros da ribeira e calafates chega à capital do reino, donde o rei expede um alvará em 14 de Março de 1502, pelo qual ordena que sejam enviados oito calafates " ... dos melhores oficiais quue aí houver... e estejam prestes em Lisboa até 15 de Abril daquele ano. A Câmara, em face da ordenação régia não pode hesitar e intima para que partam os seguintes indivíduos: Pero Anes Póvoa, João Pires Campos, Álvaro Anes da Póvoa, Fernão Gomes "o gamo dandar de amores", o filho do bacharelinho João Pires, o filho de Pero Anes da igreja Pero Jorge ".

(continua ...)